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Cientistas encontram possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia

Expedição na Amazônia encontra dezenas de possíveis novas espécies Uma expedição científica a uma das regiões mais isoladas da Amazônia terminou com u...

Cientistas encontram possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia
Cientistas encontram possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia (Foto: Reprodução)

Expedição na Amazônia encontra dezenas de possíveis novas espécies Uma expedição científica a uma das regiões mais isoladas da Amazônia terminou com uma coleção que pode revelar dezenas de espécies ainda desconhecidas pela ciência e até um possível novo gênero de lagarto. Na Serra do Aracá, no norte do Amazonas, pesquisadores coletaram cerca de 400 espécimes de répteis e anfíbios, pertencentes a mais de 25 espécies. Segundo o professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) Miguel Trefaut Rodrigues, líder da expedição, a maioria pode representar espécies novas (Veja vídeos da expedição acima, com imagens da Agência Fapesp). 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram “As coletas foram excelentes: cerca de 400 espécimes de répteis e anfíbios de mais de 25 espécies, a maioria delas nova; cerca de 100 mamíferos, 200 aves, 300 amostras de sangue para estudo dos parasitas de todos os vertebrados juntamente com potenciais vetores; aproximadamente 300 espécies de invertebrados”, afirma Trefaut. O material levado para os laboratórios inclui ainda amostras de solo e água para análise de DNA ambiental, cerca de 2 mil exsicatas de plantas — amostras vegetais preparadas para estudo e conservação em coleções científicas — e material destinado a pesquisas de fungos e bactérias do solo. Também foram obtidas amostras para estudos palinológicos, que poderão ajudar os cientistas a reconstruir a história da vegetação da região. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: CIÊNCIA: É o mesmo tamanduá-bandeira? Cientistas encontram na pelagem as pistas para descobrir PARECE FLOR, MAS É ARANHA: Ela usa sinal invisível aos humanos para caçar ‘PAISAGEM DO MEDO’: Macacos e elefantes mudam forma de se locomover quando percebem perigo Cientistas encontram dezenas de possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia André Dib / Agência Fapesp Possíveis espécies novas Entre os grupos investigados, répteis e anfíbios estão entre os que mais chamaram a atenção. “A maioria das espécies de répteis e anfíbios obtidas são novas, possivelmente obtivemos um gênero novo de lagartos. Aves e mamíferos dispersam-se com mais facilidade, mas é preciso esperar o estudo para dar mais detalhes”, explica Trefaut. A cautela é importante porque a coleta de um animal diferente dos conhecidos não significa, por si só, a descoberta formal de uma espécie ou gênero. O material ainda será analisado pelos pesquisadores antes que essa hipótese possa ser confirmada. Durante a própria expedição, a Agência FAPESP já havia relatado a coleta de um pequeno lagarto encontrado nas áreas abertas de arenito do platô e considerado pela equipe uma provável espécie nova. Expedição encontra dezenas de possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia André Dib/ Agência Fapesp Agora, o balanço apresentado por Trefaut mostra que o potencial de novidades entre os répteis e anfíbios coletados é ainda maior. A quantidade de possíveis descobertas chama atenção até mesmo de um pesquisador acostumado a explorar a Amazônia há quase cinco décadas. “Trabalho na Amazônia desde 1978, na maioria das vezes ao longo dos rios, que foram e continuam sendo a porta de entrada para amostrar a Amazônia. Sempre fazemos descobertas, mas nunca na quantidade e com a qualidade das que temos obtido explorando as montanhas com apoio da FAPESP e do Exército”, afirma. “São espécies associadas a climas de montanha, esquecidas no imenso espaço amazônico ocupado principalmente por terras baixas.” Montanha isolada na Amazônia revela dezenas de possíveis novas espécies à ciência André Dib / Agência Fapesp Uma Amazônia acima da floresta Realizada durante três semanas, a Expedição Tulu-Tuloi reuniu 16 pesquisadores na Serra do Aracá, no extremo norte do Amazonas. A missão foi a terceira e última etapa de um projeto financiado pela FAPESP, com apoio logístico do Exército Brasileiro, para investigar a biodiversidade das terras altas amazônicas. Antes do Aracá, os pesquisadores exploraram o Pico da Neblina, em 2017, e a Serra do Imeri, em 2022. A Serra do Aracá integra um conjunto de montanhas conhecidas como tepuis. Esses ambientes elevados formam uma paisagem muito diferente da floresta de terras baixas normalmente associada à Amazônia. Montanha isolada na Amazônia pode abrigar dezenas de espécies ainda desconhecidas pela ciência André Dib / Agência Fapesp A região estudada está inserida no Parque Estadual da Serra do Aracá, unidade de conservação de 1,8 milhão de hectares. O acesso ao local da expedição foi feito com helicópteros do Exército a partir de Barcelos, no Amazonas. Antes mesmo do início dos trabalhos, havia uma questão que intrigava os pesquisadores: quais espécies conseguiriam viver no Aracá e como elas se relacionariam com a fauna encontrada nas outras montanhas amazônicas? Os primeiros resultados começam a oferecer pistas. Ciência encontra dezenas de possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia Phelipe Janning / Agência Fapesp Altitude impõe uma barreira A comparação com o Pico da Neblina e a Serra do Imeri revelou uma diferença importante. Segundo Trefaut, espécies de répteis e anfíbios encontradas nas montanhas mais altas não apareceram no Aracá, onde a equipe trabalhou por volta dos 1.250 metros de altitude. “Indica que as espécies de répteis e anfíbios das montanhas mais altas, digamos acima dos 1.800 metros, não estão no Aracá a 1.250 metros, possivelmente pois as condições climáticas lhes são desfavoráveis”, explica. Expedição científica revela dezenas de possíveis novas espécies em montanha isolada na Amazônia André Dib / Agência Fapesp Isso, porém, não significa que o Aracá tenha uma fauna simplesmente compartilhada com as terras baixas. “Contudo, ainda assim, o Aracá mantém endemismos de montanha próprios, resultado do longo isolamento deste antigo conjunto montanhoso relictual do Escudo das Guianas, que tanto abriga espécies muito antigas como serve de palco para a formação de novas espécies”, afirma. De acordo com o pesquisador, espécies típicas das altas montanhas não descem para as terras baixas. Por outro lado, algumas espécies da baixa Amazônia conseguem alcançar aproximadamente 800 metros de altitude. No próprio Aracá, os endemismos observados também não estão distribuídos de maneira uniforme. “A maioria dos endemismos da Serra do Aracá e do bloco isolado que estudamos está associada a habitats francamente abertos ou a florestas nebulares, que refletem as preferências das espécies por habitats sombreados ou expostos ao sol”, explica Trefaut. Montanhas que já estiveram conectadas Expedição na Amazônia encontra dezenas de possíveis novas espécies e até provável gênero de lagarto Phelipe Janning / Agência Fapesp Além de descobrir quais animais e plantas vivem nesses ambientes, os pesquisadores tentam reconstruir uma história que começou milhões de anos antes da chegada da expedição. A Serra do Aracá está no norte do Planalto das Guianas e é formada por antigos platôs de arenito. Segundo informações divulgadas pela Agência FAPESP, a Formação Roraima, que constitui o Aracá, tem cerca de 2 bilhões de anos. A hipótese investigada pelos cientistas é que essas montanhas fizeram parte, no passado, de um grande platô contínuo. Ao longo de milhões de anos, a erosão provocada pela água e pelo vento abriu vales e isolou os maciços. As populações de animais que antes podiam estar conectadas também ficaram separadas. “As relações de parentesco das espécies encontradas nestas montanhas indicam que existiu um contato pretérito entre estes tepuis, que antigamente constituíam parte de um grande platô que foi se dissecando pelo vento e chuva ao longo de milhões de anos”, afirma Trefaut. A separação teria criado condições para que populações isoladas seguissem caminhos evolutivos diferentes. “Esta separação promoveu divergências entre populações outrora conectadas, dando origem a novas espécies. Muitas delas se extinguiram neste processo, outras permaneceram. Algumas delas, com o tempo e as oscilações climáticas, conseguiram se adaptar a baixas altitudes e colonizaram a baixa Amazônia”, explica. É por isso que os tepuis funcionam como uma espécie de arquivo da história evolutiva da região. Nas informações divulgadas antes da expedição, Trefaut definiu essas montanhas como, ao mesmo tempo, um “berço e um museu de espécies”. O isolamento provocado pela altitude transformou os maciços em verdadeiras “ilhas” dentro do continente. As expedições anteriores já forneceram evidências dessa antiga conexão. No Imeri, por exemplo, os pesquisadores encontraram uma espécie de sapo aparentada a uma das espécies descobertas no Pico da Neblina. O que acontece agora? O fim da expedição não encerra a pesquisa. Na prática, abre uma nova etapa que pode durar anos. Todo o material coletado precisará ser separado, identificado e comparado com espécies já conhecidas. “Agora iremos triar todo o material e estudá-lo sob os pontos de vista morfológico e molecular de modo a identificá-lo, reconhecer suas relações de parentesco e descrever o que é novo utilizando técnicas de rotina”, afirma Trefaut. As cerca de 300 amostras de sangue coletadas dos vertebrados também terão outro destino. Em montanha isolada da Amazônia, cientistas encontram animais que podem ser novos para a ciência Phelipe Janning / Agência Fapesp “No caso das amostras sanguíneas serão realizadas culturas e análises genéticas para estudo dos parasitas e identificação de seus vetores”, explica. Fungos e bactérias serão encaminhados a especialistas. O mesmo ocorrerá com a grande diversidade de plantas coletadas, cuja identificação exigirá, segundo o professor, uma rede de pesquisadores. Há ainda informações que podem estar escondidas em amostras aparentemente simples de água e solo. O DNA ambiental permite detectar vestígios genéticos deixados no ambiente pelos organismos. Dessa maneira, os cientistas podem encontrar evidências de animais que estavam na região, mas não foram vistos nem capturados durante a expedição. “As amostras de DNA ambiental podem também mostrar se deixamos algo para trás”, diz Trefaut. A técnica ganhou importância para o grupo depois da expedição à Serra do Imeri. Na ocasião, um girino aparentemente comum revelou, após análises genéticas, pertencer a uma espécie desconhecida de sapo. O problema é que nenhum adulto havia sido coletado. Um território ainda desconhecido Depois das expedições ao Pico da Neblina, Serra do Imeri e, agora, Serra do Aracá, Trefaut afirma que os resultados evidenciam o quanto ainda há para descobrir nas áreas mais isoladas da Amazônia brasileira. “Explorar áreas como estas, isoladas, desconhecidas ou pouco amostradas no imenso espaço amazônico, só é possível com apoio do Exército, que detém a capacidade logística para acessá-las”, afirma. Para o pesquisador, o conjunto das três expedições expõe uma dimensão ainda pouco conhecida da biodiversidade brasileira. “A exploração destes três conjuntos de montanhas — Neblina, Imeri e agora Aracá — revela o profundo desconhecimento que temos do nosso país, a julgar pela descoberta de espécies, gêneros e mesmo famílias novas.” No alto dessas montanhas isoladas, portanto, a expedição não encontrou apenas possíveis novas espécies. O material coletado pode ajudar a reconstruir uma história muito mais antiga: a de ambientes que já estiveram unidos, foram separados pela transformação da paisagem e passaram a guardar, cada um à sua maneira, fragmentos da história evolutiva da Amazônia. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

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