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Como a fisioterapia precoce mudou a trajetória de uma bebê prematura com risco de não andar e nem falar em SP

Fisioterapia precoce ajuda bebê prematura com risco de não andar e nem falar em SP Quando recebeu alta da UTI neonatal em Santo André, na Grande São Paulo ,...

Como a fisioterapia precoce mudou a trajetória de uma bebê prematura com risco de não andar e nem falar em SP
Como a fisioterapia precoce mudou a trajetória de uma bebê prematura com risco de não andar e nem falar em SP (Foto: Reprodução)

Fisioterapia precoce ajuda bebê prematura com risco de não andar e nem falar em SP Quando recebeu alta da UTI neonatal em Santo André, na Grande São Paulo , a bebê Alicia de Jesus Satiro deixou o hospital com uma série de diagnósticos e um prognóstico que preocupava a família. Gemêa e nascida prematura, com 33 semanas de gestação, ela foi diagnosticada com escoliose congênita, plagiocefalia, torcicolo congênito, displasia pulmonar grave e paralisia facial. 🔍A escoliose congênita é uma curvatura anormal da coluna presente desde o nascimento. A plagiocefalia posicional é caracterizada pelo achatamento de uma região da cabeça, geralmente causado pela permanência prolongada na mesma posição. O torcicolo congênito limita os movimentos do pescoço e faz a cabeça permanecer inclinada para um dos lados. Já a paralisia facial compromete os movimentos dos músculos do rosto, e a displasia pulmonar afeta o desenvolvimento dos pulmões. Uma semana depois, a família iniciou acompanhamento gratuito na Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina, em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, onde passou por um programa de intervenção precoce. Hoje, com 1 ano e 6 meses, a criança realiza marcha independente, apresenta autonomia nas trocas posturais e teve uma evolução importante. A curvatura da coluna causada pela escoliose diminuiu de 18 para 7 graus, a plagiocefalia foi corrigida, o torcicolo foi resolvido e apenas a paralisia facial segue em acompanhamento. O caso se transformou em um relato científico que será apresentado no III Congresso Internacional de Paralisia Cerebral, no fim de julho, em Campinas, e chama a atenção para um tema de utilidade pública: a importância da fisioterapia iniciada nos primeiros meses de vida para bebês prematuros e considerados de risco. 'Achava que ela não ia conseguir se desenvolver' Alicia durante a fiseoterapia precoce e depois com 1 ano de vida Arquivo Pessoal Ao g1, a mãe de Alicia, Verônica de Jesus, de 31 anos, contou que ainda durante a gestação descobriu que esperava gêmeas em uma gravidez monoamniótica, quando os bebês compartilham a mesma placenta e o mesmo saco amniótico. Segundo ela, por se tratar de uma gestação rara e de alto risco, a família já sabia que poderia enfrentar complicações. "As meninas compartilhavam a mesma placenta e a mesma bolsa. Por isso era tão arriscado, porque podia ter várias intercorrências e a gravidez poderia precisar ser interrompida caso a vida delas estivesse em risco." As gêmeas nasceram prematuras, com 33 semanas de gestação. Alicia nasceu com 1,930 kg e permaneceu internada por 70 dias na UTI neonatal. Já a irmã Laura ficou 203 dias na UTI neonatal e teve um tratamento mais voltado para a parte de alimentação devido ao tempo que ficou internada. "Assim que a Alicia nasceu, foi entubada e ficou na UTI. Ela usava respirador e tinha muita queda de saturação. Então, já diagnosticaram o torcicolo congênito." Segundo Verônica, durante a internação, uma fisioterapeuta chamou a atenção da família para uma alteração na coluna da bebê, identificada em um raio-X realizado no dia do nascimento. "Ela perguntou se eu tinha reparado que a coluna da Alicia tinha uma envergadura. Eu nunca tinha reparado e nenhum outro médico tinha falado sobre isso. Depois vimos que, desde o dia do nascimento, ela já tinha uma escoliose de 18 graus. Era uma escoliose de má formação." Além da escoliose e do torcicolo congênito, Alicia também recebeu outros diagnósticos, o que aumentou a preocupação da família. "Quando eu e meu marido soubemos da escoliose, fora o torcicolo congênito, e a Alicia também é cardiopata, toma remédio para o coração, tem uma comunicação intraventricular e uma paralisia na boca, no músculo da boquinha, a gente ficou muito assustado porque é algo que acomete a parte motora da criança. A gente não tinha muita informação. Na nossa cabeça, ela não ia conseguir se desenvolver igual às outras crianças, andar e engatinhar." Foi ainda durante a internação que a família recebeu a indicação da Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina. Uma fisioterapeuta que havia estudado na instituição falou sobre o trabalho desenvolvido pelo professor Arthur Pinto dos Santos Junior com bebês. Verônica conta que, desde o primeiro atendimento, a família encontrou acolhimento e segurança. "Desde o primeiro dia, por mais que a gente tivesse muito medo de como seria o desenvolvimento da Alicia, o Arthur sempre passou muita segurança. Ela lembra que a filha demonstrava tranquilidade durante as sessões, chegando a permanecer dormindo enquanto era atendida. "Tem vários vídeos da Alicia dormindo durante o atendimento. Eu ficava pensando que ela ia acordar quando começassem a mexer nela, mas teve muitas vezes em que ela ficou uma hora e cinquenta minutos dormindo. Hoje em dia ela chora para ir embora". Alicia durante a fiseoterapia com Arthur Arquivo Pessoal Os resultados também apareceram rapidamente. Segundo Verônica, antes mesmo da alta da UTI, médicos haviam informado que a bebê provavelmente precisaria usar um colete devido à escoliose. "Ela nasceu com uma escoliose de 18 graus. Os médicos falaram que ela teria que sair da UTI já usando um colete. Até hoje ela nunca usou. Depois da fisioterapia, a escoliose caiu para 7 graus." Hoje, com 1 ano e 6 meses, Alicia leva uma rotina considerada comum para a idade. "Ela corre, sobe no sofá, desce do sofá, sobe escada. Não para quieta. É o dia inteiro correndo, caindo, batendo a cabeça e empurrando a irmã." Para a mãe, acompanhar a evolução da filha trouxe alívio e mudou a forma como a família enxerga o futuro. "Na minha cabeça, a Alicia não ia andar ou teria que usar algum dispositivo. Os médicos sempre falaram que era um caso cirúrgico pela escoliose de má formação. Hoje o ortopedista disse que, se continuar do jeito que está, não é mais caso cirúrgico. Ela vai precisar fazer acompanhamento com fisioterapia, mas, às vezes, eu até esqueço que ela tem escoliose, porque o desenvolvimento dela é normal." Verônica também destaca que o tratamento vai além das sessões semanais na clínica. Segundo ela, a família aprendeu a dar continuidade aos estímulos em casa. "O Arthur [fisioterapeuta] atende as meninas uma vez por semana, mas nós ficamos os outros seis dias com elas. Então, o atendimento não fica só na faculdade. Ele leva uma bonequinha de pano, ensina os exercícios para a gente fazer quando ela está dormindo. Hoje em dia a gente virou mini fisioterapeuta, porque ele ensina e a gente tenta replicar para toda a família." Evolução nas primeiras sessões Segundo Arthur Pinto dos Santos Junior, fisioterapeuta responsável pelo atendimento da bebê na Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina e docente da instituição, a rapidez no início do tratamento foi um dos fatores mais importantes para a evolução da criança. "Foi questão de uma semana após a alta da UTI neonatal que ela iniciou o acompanhamento conosco. Esse tratamento é baseado em escalas específicas para avaliar o desenvolvimento infantil e saber se estamos no caminho correto. O atendimento também é altamente específico e direcionado por essas escalas". Escoliose antes e depois da fisioterapia em Alícia de Jesus Satiro Arquivo Pessoal Durante as sessões, são realizados estímulos que ajudam o bebê a desenvolver padrões motores adequados. "O cérebro do bebê é muito plástico. Sendo direcionado para o movimento adequado, que são os movimentos que os bebês típicos fazem para a postura adequada e para esse tônus adequado, eles conseguem ter um desenvolvimento típico ou próximo do típico." Os resultados, segundo Arthur, costumam aparecer rapidamente quando a intervenção é iniciada cedo. "Ela pode melhorar muito rápido, mas também pode piorar muito rápido. Isso depende da qualidade do estímulo que ela recebe." No caso de AlIcia, os primeiros sinais de evolução apareceram logo nas primeiras sessões. "Nas primeiras sessões ela já teve uma melhora muito grande. Hoje ela está com marcha independente, anda, corre, sobe escada, desce escada, brinca e continua em acompanhamento, mas agora com consultas mais espaçadas." Além dos pais, a irmã mais velha da bebê também foi incluída nas atividades. "Uma coisa que eu queria chamar atenção é que o tratamento é muito focado não só na criança, mas na família como um todo. Os pais participam da terapia, entram, são convidados a participar e têm uma função ativa durante o tratamento." "A irmã dele mais velha estava ficando um pouco de lado. Então, foi convidada a participar também. Ela vai algumas vezes à clínica, brinca junto, faz a terapia junto e ajuda." O objetivo, segundo o fisioterapeuta, é fazer com que os estímulos continuem em casa. "Os nossos atendimentos são feitos de forma humanizada. As crianças gostam de fazer fisioterapia. Eu tento passar isso para os alunos desde os bebês até as crianças maiores. Esse caráter humanizado tem repercussão benéfica para o sistema nervoso central da criança. Com a família participando de forma ativa e levando esses conhecimentos para casa, o sucesso terapêutico é muito maior." 'É um estímulo' Para a coordenadora do curso de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina, Cássia Santos, o caso demonstra o potencial da intervenção precoce durante o período de maior capacidade de adaptação do cérebro. "A criança sai do hospital com um prognóstico de todos esses agravos que poderiam acontecer, cheia de possibilidades de não andar, de não falar e de evoluir para uma paralisia cerebral. A intervenção precoce, trabalhando a neuroplasticidade, modifica muito esse cenário." Alicia durante sessão de fisioterapia Arquivo Pessoal Segundo Cássia, a resposta varia de acordo com cada criança e depende de diversos fatores. "A gente não consegue saber como ela vai responder. Também depende se essa criança vai ser estimulada em casa. Tudo isso modifica muito o cenário da evolução". Para ela, o objetivo da fisioterapia é devolver autonomia ao paciente. "Não há milagre e não há promessas, mas a gente busca devolver esse paciente para o convívio social de maneira produtiva. Essa é uma criança que vai ter uma vida produtiva, vai para a escola regular, vai trabalhar." "Com os cuidados neonatais, que melhoraram bastante nas últimas décadas, a sobrevida desses bebês aumentou muito. Cabe a nós proporcionar um tratamento adequado, digno e humanizado", complementou Arthur Pinto dos Santos Junior. Atendimento é gratuito e de porta aberta Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina funciona desde 2014 em Itaquera, Zona Leste de SP Divulgação/Faculdade Santa Marcelina A Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina funciona desde 2014 e oferece atendimento gratuito à população. "A faculdade é filantrópica. Nós temos atendimento de porta aberta. Recebemos pacientes encaminhados por médicos e também pessoas que ouviram falar da clínica e procuram diretamente a recepção", diz Cássia Santos. Segundo Cássia, não é necessário morar na região para ser atendido. "O atendimento é 100% gratuito. Nós não temos nenhuma taxa para a população e não há obrigatoriedade de ser morador do entorno. Temos pacientes de outros municípios." No caso dos bebês prematuros, o acolhimento acontece de forma prioritária. "Todos eles a gente acolhe porque entendemos que quanto mais rápida e mais precoce a abordagem, melhores são os resultados." A coordenadora também faz um alerta para que as famílias não esperem apenas pelo encaminhamento médico. "Muitos ficam esperando que o médico faça o encaminhamento para nos procurar. Não há essa necessidade, mas nós temos essa cultura." Para Cássia, investir na intervenção precoce também reduz impactos futuros na saúde pública. "Quando ela saiu do hospital, tinha um prognóstico de ser uma criança com deficiência. Hoje passa a demandar dos serviços de saúde exatamente como qualquer outra criança. Isso reflete de uma forma muito significativa na saúde pública." Verônica, marido, as filhas gêmeas e a filha mais velha de 8 anos Arquivo Pessoal

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