Estudo revela concentração do tráfico de papagaios em áreas urbanas
Cidades viram ‘ímã’ para tráfico de papagaios, aponta estudo fede_munoz/iNaturalist Um estudo que analisou quase três décadas de apreensões de papagai...
Cidades viram ‘ímã’ para tráfico de papagaios, aponta estudo fede_munoz/iNaturalist Um estudo que analisou quase três décadas de apreensões de papagaios no México identificou uma mudança no perfil do tráfico dessas aves: a captura, antes mais associada a áreas rurais e à necessidade de complementar a renda, passou a apresentar maior relação com regiões populosas, onde está concentrada a demanda pelos animais. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o trabalho também identificou possíveis corredores usados para transportar as aves e mostrou que o tráfico não se distribui de maneira aleatória pelo território. A metodologia tem potencial para ser aplicada em outros países, como o Brasil, que entre 1501 e 1520 chegou a aparecer em mapas europeus como “Terra dos Papagaios”, em referência à abundância dessas aves na costa. No Brasil, o tráfico ilegal de papagaios e araras ameaça espécies que já enfrentam risco de extinção, como a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), classificada como “Em Perigo de extinção (EN)” na Lista Oficial da Fauna Ameaçada de Extinção. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a espécie está entre as aves mais cobiçadas pelo tráfico internacional, que historicamente retira ovos e filhotes da natureza para venda ilegal em outros países. As aves, de forma geral, estão entre os animais mais afetados pelo tráfico no país. Segundo o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), elas representam mais de 60% dos animais traficados no Brasil. O problema, porém, não é exclusivamente brasileiro. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram mais de 6 mil registros de apreensões realizados entre 1997 e 2024. A partir desses dados, relacionaram os locais onde as aves eram encontradas às áreas naturais de ocorrência das espécies e apontaram regiões com maior probabilidade de concentração do transporte ilegal. De acordo com George Olah, pesquisador da Australian National University (ANU) e um dos autores do estudo, a mudança representa uma transformação no próprio funcionamento desse tipo de comércio. No passado, a captura poderia funcionar como fonte complementar de renda para famílias de regiões rurais próximas às florestas. Com o passar dos anos, porém, a demanda dos centros urbanos passou a exercer um papel cada vez maior. “O motor desse mercado passou da necessidade econômica de sobrevivência para a procura de consumo em cidades mais populosas”, explica o pesquisador. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ENTRE TAPAS E BEIJOS: Dança, namoro ou ameaça? Entenda o que os movimentos dos cisnes revelam ACHADOS: De águas-vivas a 'verme-fio-de-seda': expedição encontra 31 novas espécies no Atlântico Sul TRENDS: Ovo azul de ave encontrada no Brasil viraliza nas redes sociais e chama a atenção pela beleza Do campo para as cidades Tráfico de papagaios muda de rota e se concentra em grandes cidades don54/iNaturalist O estudo dividiu os registros em três períodos: de 1997 a 2008, de 2009 a 2019 e de 2020 a 2024. A comparação mostrou que os fatores associados ao tráfico mudaram ao longo do tempo. No primeiro período, a quantidade de aves apreendidas estava significativamente relacionada a indicadores de pobreza nos estados mexicanos. O resultado é compatível com uma captura mais oportunista, realizada localmente como forma de obter renda. A partir de 2009, a relação com a pobreza perdeu força, enquanto o tamanho da população passou a ter maior associação com as apreensões. O resultado mostra uma mudança no perfil do comércio, que passou a estar mais ligado às regiões com maior número de possíveis compradores. Para Olah, os grandes centros urbanos passaram a funcionar como um “ímã” para o comércio ilegal. A mudança também aparece nas espécies procuradas. Ao longo dos três períodos, aves grandes, coloridas e de alto valor, principalmente araras do gênero Ara e papagaios do gênero Amazona, foram capturadas de maneira desproporcional à abundância na natureza. Aves viajam centenas de quilômetros Papagaios percorrem centenas de quilômetros até centros do tráfico ilegal damienxw/iNaturalist Outro sinal de que o comércio ultrapassa as fronteiras locais é a distância entre as regiões onde as aves vivem e os locais onde são apreendidas. De acordo com o estudo, muitos papagaios foram encontrados a centenas de quilômetros de suas áreas naturais de ocorrência, inclusive em grandes cidades, como a Cidade do México. Para entender como esses animais poderiam estar sendo transportados pelo país, os pesquisadores adaptaram uma ferramenta conhecida como teoria de circuitos, normalmente utilizada para estudar a conectividade entre áreas naturais. Nesse caso, as estradas foram tratadas como possíveis caminhos para o deslocamento das aves. O modelo combinou informações sobre a distribuição dos papagaios na natureza com os locais onde ocorreram apreensões e indicou os corredores com maior probabilidade de concentração do tráfico. O estudo, porém, ressalta que o mapa não representa necessariamente as rotas reais utilizadas pelos traficantes. Os corredores são áreas com maior probabilidade de fluxo segundo o modelo, que considera principalmente as rodovias e os dados disponíveis sobre as apreensões. Por que alguém compra um papagaio ilegal? Do campo às cidades: estudo revela mudança no tráfico de papagaios rawcomposition/iNaturalist Conforme Olah, a procura por essas aves está relacionada principalmente a fatores culturais e afetivos, além da falta de conhecimento sobre os impactos do comércio ilegal. Papagaios, periquitos e araras são tradicionalmente mantidos como animais de estimação em diferentes países da América Latina. A plumagem colorida, o comportamento e a capacidade de imitar a voz humana contribuem para esse interesse. O pesquisador também chama atenção para consumidores interessados em espécies raras ou de grande porte, para os quais determinados animais podem adquirir valor de status. Com a expansão das redes sociais e do comércio pela internet, a ilegalidade pode se tornar menos evidente para o comprador, segundo Olah. Roubo de filhotes Filhotes de papagaio são resgatados de uma situação de tráfico de animais silvestres em Floresta (PE) CPRH O impacto do tráfico não termina na retirada de um animal da natureza. Tanto a captura de adultos quanto a retirada de filhotes podem comprometer as populações selvagens. No caso dos adultos, a retirada de indivíduos em idade reprodutiva reduz diretamente a capacidade de reprodução da população. Já o saque de ninhos interfere na entrada de novos indivíduos. A retirada repetida de filhotes também pode prejudicar os próprios locais de nidificação, visto que muitas espécies utilizam cavidades de árvores para se reproduzir. Esses locais podem ser destruídos durante a captura e deixar de estar disponíveis para futuras gerações. O problema é especialmente preocupante para aves de reprodução relativamente lenta e que podem permanecer muitos anos na natureza. E o que o México tem a ver com o Brasil? Embora o estudo tenha sido realizado no México, a metodologia pode ser útil para outros países que enfrentam problemas semelhantes. Brasil e México possuem grande diversidade de psitacídeos — família das aves que têm o bico curvo —, extensas áreas de habitat, redes rodoviárias e grandes centros urbanos. Essas características podem criar condições semelhantes para o funcionamento do tráfico, de acordo com Olah. “O caso do México mostra que o tráfico não é um evento aleatório, mas um sistema espacialmente previsível que evolui de acordo com o desenvolvimento socioeconômico”, afirma. Segundo o pesquisador, a metodologia poderia ajudar autoridades brasileiras a identificar os corredores mais usados pelo tráfico e direcionar a fiscalização para esses pontos, dificultando o transporte ilegal das aves e ajudando a combater um problema enfrentado pelos dois países. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente