Não monogamia no carnaval: casais usam folia como teste para abrir relacionamento
Foliões no Cordão Carnavalesco Confraria do Pasmado, na Zona Oeste da capital paulista, em 8/2/26 LEANDRO CHEMALLE/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO No carnaval, qu...
Foliões no Cordão Carnavalesco Confraria do Pasmado, na Zona Oeste da capital paulista, em 8/2/26 LEANDRO CHEMALLE/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO No carnaval, quando fantasias, corpos e regras parecem mais livres, é comum que desejos também ganhem espaço. Para alguns casais, a folia se torna o momento de testar novos acordos, até mesmo abrir o relacionamento, ainda que temporariamente. Este foi o caso de Fernando, de 29 anos, que fez um test-drive não monogâmico com a namorada Vitória, de 27 anos, no carnaval de 2025. Juntos há seis anos, os jovens sentiam vontade de flertar e conhecer outras pessoas. Por isso, durante os quatro dias de folia em São Paulo, cada um foi para um lado. 🔎 Não monogamia é um termo guarda-chuva para classificar formas de relacionamento ético e consensual que rejeitam a exclusividade sexual ou romântica. “A gente não queria se sentir culpado ou triste por algo que acontece naturalmente, que é se interessar por outras pessoas. Então combinamos que, naquele momento, estaria tudo bem [abrir a relação]. A gente propôs essa dinâmica. Porém, não compartilhamos detalhes das pessoas com quem ficamos: nomes ou quantidade”, explica Fernando. O que é não monogamia? Entenda status amoroso Fred Nicácio e outros BBBs O carnaval, aliás, sempre esteve no centro da história dos dois. Foi em um ensaio de pré-carnaval, em 2020, que eles se conheceram. Um encontro de uma foliona com um músico, já que Fernando toca repinique e comanda a bateria de dois blocos — um da Barra Funda e outro da Santa Cecília. “Após duas semanas de conversa, a gente se encontrou para o desfile do bloco em que eu tocava. A gente ficou, e aí virou amor de carnaval. Depois virou amor de pandemia também”, relembra Fernando. Solteiros reclamam de escassez de beijo na boca no camarote mais concorrido do carnaval de SP: 'muita pose e pouca atitude' O casal tomou gosto pela experiência da não monogamia no carnaval e abriu a relação permanentemente. Segundo ele, o teste durante a folia “foi um pilar” importante nesse processo de transição do namoro. Para Fernando, a experiência trouxe ganhos de autoestima e comunicação. Mas o músico faz um alerta: “Exige muita conversa, muito alinhamento, muito combinado. Não é simples. A gente precisa ter cuidado, respeito e consideração um pelo outro”. Por que testar no carnaval? A experiência de Fernando não é isolada. Especialistas apontam que o carnaval costuma funcionar como um “atalho emocional” para esse tipo de decisão. Para a sexóloga e mestre em terapia sexual e de casais Mariana Williams, a folia cria um contexto social que facilita experimentações. “O carnaval é um período que abaixa um pouco algumas das morais sociais. Elas ainda estão ali, ainda temos nossa ética e cultura, mas algumas regras ficam suspensas por um momento. É um período de muita liberdade”, explica. “A gente percebe isso na forma como as pessoas se vestem, se colocam, usam o próprio corpo. É um momento muito libidinoso e também de muita paquera.” A psicanalista e pesquisadora sobre amor, ciúmes e não monogamias Mariana Ribeiro concorda que a festa provoca questionamentos. “O carnaval, na nossa cultura, tem essa característica de liberdade, de transbordamento. Isso produz um efeito de as pessoas se interrogarem mais a respeito do próprio desejo. No meio da festa, pode surgir a pergunta: será que eu gostaria disso também?” Ela faz, porém, uma ressalva: usar apenas os quatro dias de folia como espaço para decisões complexas pode ser arriscado. “Se o carnaval é o único momento em que duas pessoas se dispõem a ter as conversas necessárias sobre desejo, angústias e limites, a tendência é haver mais problemas. É muito pouco tempo para elaborações que precisam de calma e cuidado.” Diálogo antes do bloco Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta neste domingo (8) RODILEI MORAIS/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO As especialistas reforçam que abrir um relacionamento exige planejamento — e não deve ser decidido no calor da festa. No caso de Fernando e Vitória, o casal já vinha conversando sobre a não monogamia antes do carnaval. “Evitar ter essa conversa no meio do bloco é fundamental”, orienta Mariana Williams. “Você pode estar sob efeito de álcool, de euforia, e depois acabar criando um conflito no relacionamento.” Segundo a sexóloga, a recomendação é antecipar cenários. Apesar de não existir a garantia de que a previsão vai funcionar, ela diz que, dessa maneira, o casal estabelece combinados que trazem segurança. “Perguntar literalmente: ‘Se você me vir beijando alguém, isso te causa desconforto? O que você gostaria que a gente fizesse?’ Assim como a gente tenta antecipar o que vai comprar no mercado, a gente pode tentar antecipar acordos. É importante que exista um combinado para ser seguido”, afirma. Para Mariana Ribeiro, outro ponto central é “legalizar” o ciúme dentro da conversa. “Às vezes parece que, se o ciúme apareceu, algo deu muito errado. Mas ciúme é um afeto. Não precisa equivaler à cobrança ou ao julgamento. Se o casal já sabe que esse sentimento pode surgir e que ele pode ser acolhido, isso facilita muito”, diz. Nem sempre dá certo A sexóloga Mariana Williams fala também a partir da própria experiência. Ela já viveu um relacionamento aberto que funcionava fora do carnaval, mas enfrentou dificuldades durante a folia. “No carnaval, a gente decidiu ficar mais separado e instaurou uma energia de ‘não se conta sobre nada’. Eu me sentia traindo e me sentia traída. Criou um desconforto porque parecia que não era mais uma relação unida”, relata. Para ela, o problema não foi a abertura em si, mas a quebra da sensação de parceria. “A nossa relação aberta funcionava melhor quando a gente vivia aquilo em coletivo, mesmo que não ficasse com outras pessoas.” No caso de Fernando e Vitória, o que começou como um teste de carnaval virou um novo acordo de relacionamento. Para especialistas, a diferença entre liberdade e conflito está menos na folia e mais na conversa: é o diálogo que sustenta — ou não — qualquer mudança nas regras do amor.