Tubarão-mangona utiliza litoral paulista como local de reprodução
Imagem mostra tubarão-mangona ou tubarão-touro wetlens / iNaturalist O Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, no litoral norte de São Paul...
Imagem mostra tubarão-mangona ou tubarão-touro wetlens / iNaturalist O Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo, é utilizado pelo tubarão-mangona (Carcharias taurus) como área de reprodução. A constatação faz parte de um estudo que registrou machos adultos, fêmeas com marcas de acasalamento e uma fêmea grávida na unidade de conservação, indicando que o local é usado em fases críticas do ciclo de vida da espécie. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O tubarão-mangona é considerado criticamente ameaçado de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Desde 2015, o Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Universidade Federal de São Paulo (Labecmar-Unifesp) realiza pesquisas no Refúgio de Alcatrazes. Desta vez, os pesquisadores utilizaram amostragens obtidas por meio de estereofilmagens subaquáticas remotas com isca, técnica conhecida pela sigla em inglês BRUV. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ADAPTAÇÃO: Árvores da Amazônia fazem 'contas'? Veja como elas podem mudar de estratégia para sobreviver FOTO: Flagra de zogue-zogue-de-Alta-Floresta com filhote nas costas em ponte de dossel BIG DAY: Instituto promove 2ª ação para observação de araras-azuis-grandes na natureza Anos de estudo A metodologia utiliza câmeras sincronizadas e uma isca presa a um suporte para atrair, filmar e medir animais aquáticos em seu habitat natural, sem causar perturbações. As análises foram realizadas durante os verões e invernos de 2022, 2023, 2024 e 2025, totalizando amostragens em quatro verões e quatro invernos distintos. Tubarão-Touro (Carcharias taurus) scubalynne / iNaturalist O estudo, liderado pelo Labecmar-Unifesp, contou com a colaboração da Unesp de São Vicente e de um aluno do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Pesca de São Paulo. "Esse estudo foi realizado no âmbito do projeto Mar de Alcatrazes, apoiado pela Petrobrás, que tinha como objetivo monitorar a biodiversidade marinha e os fatores ambientais (abióticos) do Arquipélago de Alcatrazes. No entanto, considerando que além dos BRUVs utilizamos também dados de ciência-cidadã, integramos um outro projeto financiado pela Fundação de Amparo da Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)", explica o pesquisador Fabio Motta, do Labecmar. Fêmea grávida Ao analisar os vídeos obtidos pelos BRUVs e um vídeo gravado por um mergulhador recreativo que atua como condutor subaquático no Refúgio de Alcatrazes, a equipe registrou machos adultos e uma fêmea grávida durante o inverno, incluindo imagens de até quatro tubarões-mangona no mesmo vídeo. Veja o que é destaque no g1: Agora no g1 Registros feitos em mergulho livre por colaboradores do projeto também mostraram um grupo de até dez indivíduos, incluindo uma fêmea que apresentava mordidas de acasalamento feitas por machos durante a cópula, no período de verão. "Com isso concluímos que o arquipélago é usado em fases críticas do ciclo de vida da espécie, ou seja, machos em estágio reprodutivo, fêmeas com marcas de cópula recente e fêmeas grávidas. O registro da fêmea grávida foi possível ao observar a região abdominal do exemplar bastante distendida. No caso da fêmea com marcas de acasalamento foi possível observar as cicatrizes no dorso do exemplar filmado pelo mergulhador", detalha Fabio Motta. Os dados coletados permitem afirmar que a espécie pode ser observada no Arquipélago de Alcatrazes nos meses de inverno e verão, incluindo agregações de até dez indivíduos. Reprodução do tubarão A fêmea do tubarão-mangona possui gestação estimada entre nove e 12 meses e pode se reproduzir a cada dois anos. A espécie apresenta uma das menores taxas de fecundidade registradas entre os tubarões, produzindo apenas um filhote por útero, ou seja, dois filhotes por gestação. A fêmea possui dois úteros. Tubarão-Touro (Carcharias taurus) mattdowse / iNaturalist "A espécie apresenta algo único, a viviparidade adelfofágica, também chamada de canibalismo intrauterino. Durante uma fase da gestação, os filhotes mais velhos, após se nutrirem do conteúdo das suas bolsas de vitelo, substância nutritiva, passam a se nutrir de óvulos e ovos produzidos pela mãe (nutrição ovofágica). Em alguns casos, esses óvulos chegam a ser fertilizados, dando origem a filhotes mais novos que acabam virando alimento para os seus irmãos mais velhos", explica o pesquisador. Tubarão-mangona pode atignir 3 metros O tubarão-mangona (Carcharias taurus) ocorre nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico Ocidental, preferencialmente em águas subtropicais e temperadas. A espécie é costeira, mas pode fazer incursões esporádicas em regiões oceânicas. Embora prefira habitar próximo ao substrato, também é encontrada eventualmente na coluna d'água. No Brasil, ocorre na costa das regiões Sul e Sudeste, entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. Vive em águas de seis até pelo menos 200 metros de profundidade. O animal alimenta-se de uma grande variedade de peixes ósseos, pequenos elasmobrânquios (tubarões e raias), cefalópodes (lulas e polvos) e crustáceos. Tubarão-Touro (Carcharias taurus) cuckoobrains / iNaturalist Entre os fatores que colocam a espécie na categoria de criticamente ameaçada de extinção pela IUCN estão a perda de habitat, a poluição marinha, as mudanças climáticas e a pesca incidental. A biologia do tubarão-mangona no Brasil ainda é pouco conhecida. Por isso, a divulgação desse estudo é considerada de fundamental importância. Quando adulto, o tubarão-mangona pode atingir até três metros de comprimento e 150 quilos. Apesar dos dentes pontudos expostos para fora da boca, característica que lhe confere aparência de um animal agressivo, a espécie apresenta comportamento de natação lento e calmo. No dicionário, a palavra "mangona" significa preguiça e indolência. Um apelido que não condiz com a importância da espécie, que utiliza o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes para garantir sua perpetuação. O Refúgio de Alcatrazes é uma unidade de conservação (UC) federal administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente